Inteligência Artificial

Investimentos em data centers no Brasil avançam com demanda por IA e computação em nuvem

O Brasil amplia os investimentos em data centers para atender ao crescimento da inteligência artificial e da computação em nuvem. A estratégia combina incentivos fiscais, projetos privados, supercomputação e busca por maior soberania digital.

Os investimentos em data centers no Brasil ganharam força com o avanço da inteligência artificial (IA), da computação em nuvem e dos serviços digitais. A expansão envolve empresas privadas, bancos públicos, órgãos federais e companhias de tecnologia interessadas em ampliar a capacidade de processamento, armazenamento e transmissão de dados no país.

O movimento ocorre em um momento de disputa internacional por infraestrutura computacional. Data centers são instalações que concentram servidores, equipamentos de rede, sistemas de segurança e estruturas de energia e refrigeração. Eles sustentam serviços como plataformas de nuvem, bancos digitais, comércio eletrônico, streaming, aplicações corporativas e ferramentas de IA.

No Brasil, a agenda também está associada à redução da dependência de serviços digitais hospedados no exterior e à tentativa de criar condições para que dados, modelos de inteligência artificial e aplicações estratégicas sejam processados em território nacional.

Redata cria incentivo para novos projetos

Uma das principais medidas recentes é o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, conhecido como Redata. A lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 15 de setembro de 2026 e estabeleceu incentivos para a implantação, modernização e ampliação de centros de dados.

O programa prevê isenção de PIS/Pasep, Cofins e IPI na aquisição de equipamentos de tecnologia da informação e comunicação destinados aos data centers. Equipamentos sem produção nacional equivalente também podem ter isenção do imposto de importação, conforme as regras do regime. (gov.br)

O benefício está vinculado a contrapartidas. As empresas deverão destinar 2% do valor dos produtos adquiridos a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionados à cadeia produtiva da economia digital. Também terão de disponibilizar ao mercado nacional pelo menos 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados.

A legislação prevê redução dessas exigências para empreendimentos instalados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O objetivo é estimular a desconcentração regional de uma atividade hoje fortemente concentrada nas áreas mais desenvolvidas do país. O programa também estabelece critérios de eficiência hídrica e sustentabilidade, incluindo o uso de fontes de energia renováveis ou de baixa emissão, cujos parâmetros ainda dependem de regulamentação. (gov.br)

Projetos pressionam sistema elétrico

A expansão dos data centers aumenta a importância da infraestrutura elétrica. Grandes instalações podem consumir volumes elevados de energia de forma contínua, especialmente quando são projetadas para treinar ou operar modelos de inteligência artificial, que exigem processadores especializados e alta capacidade de refrigeração.

Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram a dimensão da demanda potencial. Entre setembro e novembro de 2025, o volume de projetos de data centers em processo no Ministério de Minas e Energia passou de 19,8 gigawatts (GW) para 26,2 GW. O acréscimo de 6,4 GW, porém, representa projetos em análise e não investimentos já concluídos. A própria EPE ressalta que a efetivação depende de fatores como transmissão, telecomunicações, viabilidade econômica e regras de conexão à rede. (epe.gov.br)

São Paulo concentra parte relevante dos empreendimentos em estudo. Para o estado, a EPE recomendou cerca de R$ 1,6 bilhão em investimentos em transmissão, com potencial para liberar aproximadamente 4 GW de margem de conexão. Também estão previstos estudos para ampliar a capacidade de atendimento em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e no Nordeste.

O desafio energético tem duas dimensões. A primeira é garantir eletricidade suficiente e confiável para as instalações. A segunda é oferecer energia a preços competitivos sem comprometer a segurança do sistema ou aumentar de forma desproporcional os impactos ambientais. A matriz elétrica brasileira, com participação relevante de fontes renováveis, é apontada pelo governo como uma vantagem para atrair projetos.

Plano de IA inclui supercomputação e nuvem nacional

Os investimentos públicos também fazem parte dessa estratégia. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado em 2024, prevê até R$ 23 bilhões em iniciativas relacionadas à infraestrutura, pesquisa, capacitação e desenvolvimento de aplicações de IA até 2028.

Entre as ações está a criação de uma estrutura de supercomputação voltada ao processamento de grandes volumes de dados e ao desenvolvimento de modelos de inteligência artificial. Em agosto de 2026, o Laboratório Nacional de Computação Científica informou que conduz os estudos técnicos para a implantação de um novo supercomputador no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, na região metropolitana de Natal, no Rio Grande do Norte. O equipamento foi divulgado com custo estimado em aproximadamente R$ 1,06 bilhão. (gov.br)

O PBIA também prevê o fortalecimento de uma infraestrutura nacional de armazenamento e processamento de dados. A proposta de uma “nuvem soberana” busca ampliar o controle sobre informações estratégicas e criar condições para que órgãos públicos, universidades, startups e empresas brasileiras desenvolvam soluções com menor dependência de plataformas estrangeiras. (gov.br)

Na prática, uma infraestrutura nacional não elimina o uso de serviços internacionais de nuvem. A tendência é de coexistência entre provedores globais, empresas brasileiras, estruturas governamentais e ambientes híbridos, nos quais diferentes sistemas são integrados de acordo com requisitos de segurança, custo e desempenho.

Financiamento apoia empresas e infraestrutura

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também participa do esforço de expansão. Desde 2023, o banco aprovou R$ 4,7 bilhões em crédito e participação acionária para projetos relacionados à inteligência artificial, incluindo hardware, supercomputadores, computação em nuvem e data centers.

Um dos projetos apoiados pelo BNDES envolve o desenvolvimento de um data center multiusuário com capacidade inicial de 12 megawatts de tecnologia da informação. A estrutura foi planejada para atender clientes de grande porte e cargas de trabalho de computação em nuvem e inteligência artificial. (agenciagov.ebc.com.br)

Esse tipo de financiamento busca reduzir uma das principais barreiras do setor: o alto volume de capital necessário para construir instalações, adquirir servidores e garantir conexão elétrica e de telecomunicações. O retorno dos projetos, entretanto, depende da contratação de capacidade por empresas, governos e provedores de serviços digitais.

Expansão ainda depende de execução

O crescimento anunciado para o setor não significa que todos os projetos em estudo serão construídos. A EPE destaca que pedidos de conexão e planos de expansão podem ser alterados ou não avançar por razões técnicas, financeiras ou regulatórias.

Além da energia, os empreendimentos precisam de redes de fibra óptica, cabos submarinos, terrenos adequados, licenciamento ambiental, equipamentos especializados e profissionais qualificados. A localização também influencia custos, latência e acesso a clientes. Por isso, regiões próximas a grandes centros consumidores continuam relevantes, enquanto outras áreas buscam atrair investimentos com energia renovável, incentivos e disponibilidade de espaço.

O Brasil tem, portanto, uma oportunidade de ampliar sua participação na economia digital, mas o resultado dependerá da capacidade de transformar anúncios e projetos em instalações efetivamente operacionais. A expansão dos data centers pode fortalecer a pesquisa, a indústria de tecnologia e os serviços digitais, desde que seja acompanhada por planejamento energético, regras estáveis, contrapartidas verificáveis e formação de mão de obra especializada.